Uberella

Captura de Tela 2016-06-06 às 22.44.02.pngQuando chamou o Uber naquela noite, Katia ainda estava com o as últimas palavras de Miguel ecoando na cabeça.

_ Tente entender, não é nada com você.

Katia aceitava foras muito bem, estava calejada com mais de 20 anos de relacionamentos fracassados, mas não suportava clichês. Ser passada para trás e ainda ouvir um clichê era muito dolorido, mesmo com toda a experiência. Mesmo estando acostumada com o monte de trastes com quem tentou ser feliz.

Na adolescência, fazia sucesso entre os meninos. Seus seios apareceram antes que o das colegas e nos bailinhos todos queriam dançar com ela de rosto colado ao som de Spandau Ballet.

Era louca por um garoto chamado Ricardo mas quando se beijaram ele tocou seus seios como quem manipula o joystick do Atari. Ela ficou tão ofendida que nunca mais se falaram e ele gabou-se do fato para metade da escola.

Na faculdade Katia demonstrava seu desprezo aos valores impostos evitando maquiagem, esmalte ou roupas da moda. Fazia o tipo desencanada e  vivia se apaixonando pelos donos dos melhores discursos de esquerda  do diretório acadêmico. No final, ouvia foras que lembravam textos políticos:

_ Não podemos ser donos uns dos outros, esses são pensamentos pequeno-burgueses…

Ela passou por muitas fases na vida, desde o crescimento profissional, quando se transformara numa workaholic até a busca pela verdade interior, quando meditava disfarçadamente em seu cubículo. Cada fase teve seu namorado adequado. Márcio, um jovem investidor, escreveu uma carta para acabar o namoro que mais parecia um memorando. Já Chico Ghandi, o namorado holístico, não deu fora nenhum, ela encontrou-o com outra num bar da moda, tomando champagne e fumando.

Por isso quando entrou no carro do Uber naquela noite, Katia não tinha vontade de chorar. As palavras pobres de Miguel não conseguiriam arrancar suas lágrimas. Ela sentou no banco de trás do sedan preto e o condutor a levou em silêncio para casa. Apenas perguntou a rádio de sua preferência e ela pediu que ele desligasse o som.

No silêncio do carro confortável, Katia percebeu que há tempos um homem não fazia o que fez o motorista. Foi educado, levou-a onde ela precisava e não cobrou nada em troca (a questão do cartão de crédito era resolvida diretamente no aplicativo, sem interferência dele).

Ela já havia passado pela fase dos sites de encontros (Par Perfeito, B2) e pela fase dos aplicativos (Tinder, Happn), sempre com resultados beirando o cômico. Só que o Uber era diferente, tinha o que ela queria.

Agora, duas ou três vezes por semana, ela sai muito bem vestida e maquiada. Chama um UberX e roda por aí. Ao terminar a viagem, desce do carro e chamava outro. Escolhendo endereços aleatórios por horas.

Nessas noites, tem homens elegantes e educados a seu dispor. Eles não questionam,  não reclamam, não a comparam com suas mães ou com a ex. Apenas a levam em silêncio e fazem perguntas no tom de voz adequado, coisa que namorado nenhum jamais fez.

 

 

 

 

 

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Amanda Nudes

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Amanda ouviu a expressão por acaso no rádio e não deu muita bola:

Manda nudes

Depois leu alguma coisa na internet, uma matéria que falava de uma atriz que fez fotos nuas com seu celular e teve sua imagem exposta indevidamente.

A expressão ficou na cabeça mas não entendia direito.

No almoço com duas colegas mais novas do trabalho, ela pediu explicações.

_ Que negócio é esse de manda nudes que o povo anda falando?

Amanda tinha 35 anos e uma vida social muito regrada. Morava desde a faculdade em São Paulo e sabia que nunca voltaria a Goiás. Passou boa parte desse período namorando mas agora estava sozinha.

_ Manda nudes, ué? É mandar foto pelada no Snapchat. – Claudia respondeu com uma imensa naturalidade.

Talvez isso fosse fácil de compreender para uma garota de 23 anos como a Claudia, mas Amanda ficou ainda mais confusa.

_ Devagar, o que é snapchat? Como assim mandar foto pelada?

As meninas riram da aflição da colega e explicaram. As pessoas, quando se paqueram ou estão saindo, agora trocam fotos nuas e fazem isso através de um aplicativo chamado Snapchat, em que as mensagem desaparecem sozinhas logo depois de abertas.

_ E vocês fazem isso? – Amanda estava horrorizada.

_ Claro que não. – As duas responderam em uníssono mas o olhar da Claudia era oblíquo, deixando Amanda com dúvidas em relação a veracidade da resposta.

As noites seguintes foram de angústia para Amanda. Ela não se lembrava de ter alguma fantasia sexual até então, mas a ideia de trocar fotos do corpo despido com um estranho a excitou.

Num dia vasculhou a internet até achar sites com imagens vazadas de nudes feitos por pessoas de todo o mundo e contemplou as fotos com fascinação.

Outra noite, despiu-se diante do espelho admirando as imperfeições do seu corpo.

Sempre sozinha, substituiu as novelas pela obsessão em relação a nova moda. Queria encontrar alguém para compartilhar os nudes. Baixou o Tinder, baixou o Snapchat, maquiou-se, colocou uma lingerie e testou várias poses.

Fez algumas fotos, não gostou, descartou. Fez novas fotos, algumas sensuais, outras quase pornográficas e as guardou com medo e esperança.

A noite avançava, ela entrou nos dois aplicativos ao mesmo tempo e desesperadamente procurou por um par. Marcou uma série de homens que lhe agradaram e até alguns que não lhe agradaram tanto. Atrapalhou-se com o funcionamento do Snap. Lembrou-se que não tinha amigas a quem podia pedir dicas. Também não havia homens no mundo real com quem pudesse trocar esse tipo de sacanagem.

Passadas algumas horas, não conseguiu um único contato no Tinder ou no Snapchat.

A madrugada engoliu a noite, ela ainda olhou sem muita esperança para o Whatsapp onde o único movimento vinha do grupo da família que compartilhava rostinhos felizes. Não havia quem pudesse se interessar pelas suas fotos nua. Amanda jogou-se na cama e chorou compulsivamente.

Renata e o Tinder

Tinder

Passados oito meses da separação, Renata ainda não havia saído com ninguém. As conversas com amigas e as sessões de análise levavam ao mesmo lugar. Precisava viver o luto. Qualquer tentativa de se arriscar numa aventura amorosa infringiria rígidas regras pessoais. Precisava cuidar do filho, se dedicar ao trabalho e se reconstruir.

Mas as amigas decidiram que o prazo do luto se esgotara e agora a pressionavam. Nos bares sugeriam que ela retribuísse a olhares masculinos de outras mesas. Algumas queriam levá-la a casas noturnas, mas Renata se recusava a aceitar. Tudo o que não precisava era de cantadas baratas, bafo de cerveja e homens que falam pegando no braço.

Oswaldo, o ex, já estava saindo com alguém. Aliás, segundo Rita, sua cunhada, ele já havia conhecido a moça uns dois meses antes do dia em que deixou a casa chorando como uma criança.

Renata não sentia falta dele, esse não era o problema. Aliás, ela mesma já não via motivos palpáveis para manter o celibato. Apenas sentia que era difícil encarar novamente uma paquera, se abrir física e emocionalmente para outro homem.

Naquela noite de sábado estava sozinha. O filho viajara com o pai e as amigas não estavam disponíveis. Sobrava apenas o celular e a curiosidade de usar o aplicativo do qual tanto lhe falavam, o Tinder.

Segundo Vera, amiga também divorciada, o Tinder é a maior invenção da humanidade desde as fraldas descartáveis. Os homens estavam à disposição, era só escolher.

Protegida pelo silêncio da casa vazia, ela olhava para o Iphone e pensava, não custa nada baixar o troço, se for ruim é só apagar depois.

Seguidas as instruções, fez a instalação e prosseguiu com o cadastro. Gastou um tempo maior na escolha da foto. Queria esconder alguns traços da idade, mas sem deixar de ser honesta. Melhor encontrar alguém que a aceitasse do jeito que é. Ainda assim, evitou mostrar o corpo e não revelar uns quilinhos intrometidos.

Agora era só começar a brincadeira, correr o dedo e escolher entre os homens que apareciam como um bolo de figurinhas repetidas. Era o que deveriam ser, figurinhas que já fizeram sucesso em outros álbuns e agora estavam lá disponíveis.

Com todas as ressalvas, começou timidamente, porém, muito rápido, a brincadeira a encantou. Era só marcar com sim ou não os rostos que iam aparecendo e haviam rostos de todos os tipos. Tradicionais, alternativos bigodudos, carecas, evangélicos, exibicionistas, homens que posavam ao lado de carros, homens com olhar inseguro.

De repente, não pensava mais na possibilidade de sair com um deles, estava se divertindo com o jogo, descartando milhares de tipos: Não, não e não.

Aqueles eram os homens que um dia mexeram com ela na rua. Os homens que, mesmo menos competentes, cresceram mais rápido na empresa. Os homens que tentaram beijá-la a força no carnaval de 1994, os homens que puxavam os cabelos das moças no caminho do banheiro da festa.

Sozinha, no escuro, seu rosto era iluminado pela luz do aparelhinho. Não iria sair naquele dia, não iria se importar com os possíveis matches. Fazia sua vingança pessoal mandando todos para a lixeira. Não, não e não.

Solidão Moderninha

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Assisti com imenso e imperdoável atraso o filme “Her” do Spike Jonze e confesso que diante de tantos elogios e críticas positivas que li e ouvi, ele acabou não superando minhas expectativas. Muito embora há de se admitir que a fotografia, a trilha e a direção de arte são de tirar o chapéu.

Nem vem ao caso falar dos aspectos que menos gostei, afinal, o filme faz pensar sobre a solidão e esse é o tema desta pequena crônica.

Theodore, o personagem principal vive num futuro próximo, é um homem solitário e se apaixona por seu sistema operacional. Para quem não sabe o tal sistema fala com a voz sexy da Scarlett Johansson, é inteligente, sagaz e divertido.

Digamos que não é preciso de muito para se apaixonar por qualquer parte da Scarlett Johansson. Eu me apaixonaria até pelo joanete dela. Mas isso não vem ao caso. Algumas críticas que li falaram sobre a relação homem máquina ou sobre a realidade artificial.

Não deixa de ser verdade, mas o jeito mais interessante é ver o filme como uma metáfora da nossa solidão contemporânea, em que substituímos o contato físico com as pessoas por um contato intermediado por equipamentos, e de certa forma nos apaixonamos por esses dispositivos.

Atire a primeira pedra quem nunca deixou de sair e acabou ficando em casa, grudado em seu smartphone vendo as fotos de pessoas que efetivamente saíram.

E não é necessário ser sozinho para viver esse tipo de solidão. Podemos vivê-la em um bar, onde nosso supostos companheiros de copo estão todos mais interessados no que acontece nas redes sociais do que na conversa da mesa.

Podemos viver a solidão em família, em nossa sala de estar, quando cada um dos filhos conversa em seus grupos de Whatsapp, a mãe curte fotos no Instagram e o pai troca de canal em silêncio revendo documentários sobre estradas no Alasca e pescadores de atum.

Não é a toa que surgem tantas inovações para solitários: Sites pornográficos, sistemas de encontros, chats com desconhecidos, aplicativos que na verdade não ajudam ninguém a deixar a solidão, apenas criam a ilusão de que estamos menos sozinhos. A voz sensual do computador não passava uma ilusão de companhia.

Minha filha ainda está longe do mundo virtual. Suas relações com amigos são extremamente físicas, envolvem abraços, saltos, correrias, gritos e brinquedos de verdade. Eu, na condição de nostálgico doentio tenho inveja dela, enquanto aguardo que os “joinhas” deste texto me passem uma ilusão de carinho e pertencimento.

Arlindo e o Carnaval

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Arlindo quase sempre odiou o carnaval. Digo quase, pois por num período de poucos anos, quando ainda era pequeno demais para escolher as próprias roupas, a mãe o levava para as matinês do Juventus e ele adorava. Sempre fantasiado de pirata, Cowboy ou marinheiro, corria pelo salão juntando o confete caído para jogar ao alto repetidas vezes, enquanto aprendia sem querer as velhas marchinhas de carnaval.

Sua aversão a grande festa do Brasil começou na faculdade de direito. Lá conhecera as ideia de Marx e passara a ver no carnaval um símbolo da alienação do Brasileiro. Pensava no trabalhador explorado o ano inteiro que ao invés de lutar contra a opressão, caía na folia. No Brasil, o carnaval era o verdadeiro ópio do povo.

Anos depois, quando já estava crescendo profissionalmente no departamento jurídico de uma multinacional, Arlindo abandonou os princípios comunistas e passou a sonhar com um Brasil que enriqueceria pelo investimento privado. Nessa época, ele odiava o carnaval por outro motivo. Achava a festa um atraso de vida. Acreditava que a população deveria ter mais educação, conhecer melhor a cultura de outros países, se esforçar para crescer profissionalmente e não ficar rebolando seminua pelas ruas das cidades.

Hoje, chegando aos 50 anos, Arlindo continua a não gostar do carnaval. Aliás, também não gosta muito da própria vida. A carreira em grandes empresas não decolou, ele ocupa um cargo menor e é subalternos de advogados bem mais jovens. O casamento acabou e a ex-mulher mudou-se para Santos com os filhos. Neste carnaval de 2015, Arlindo decidiu ficar em casa, vendo uma maratona de filmes pela TV e pesquisando inutilidades em sites de compras.

Porém, na noite de sábado, era impossível ver o Netflix pois havia o enorme barulho de um bloco passando em sua rua. Acabou descendo para testemunhar a bagunça de perto.

Alguns jovens com microfones, cavaquinhos e violões puxavam o samba de cima de uma caminhonete e eram seguidos a pé por uma bateria que não tinha mais de dez integrantes. Em seu redor, pessoas do bairro se divertiam. Senhoras, casais e crianças acompanhavam o bloco, cantando e dançando. A música era “Taí”, de Carmem Miranda.

Longe da família, dos sonhos de justiça da juventude, da ambição de sucesso que um dia o motivara, Arlindo começou a seguir aquele humilde cordão, entoando em coro a canção que ouvira na infância. Depois de “Taí”, a banda tocou várias marchinhas antigas que Arlindo pensava ter esquecido.

Não se sabe se ele passou a gostar de carnaval naquela noite, mas por algum tempo, ele experimentou o ópio do povo, e nesse tempo nada foi mais importante do que som do bumbo, em sua imitação rítmica da batida do coração. Embalado pela música, voltou a ser o pirata, o cowboy, o marinheiro que corria pelos salões do Juventus amontoando confete nas mãozinhas para finalmente jogar tudo para o alto.